Há seis anos, eu saía de casa às cinco da manhã.
Trabalhava como empregada doméstica numa casa no Talatona e, ao fim-de-semana, fazia unhas para tentar completar. Recebia pouco mais de 65 mil kwanzas por mês — e mesmo assim o dinheiro nunca chegava ao fim do mês. Dependia da minha irmã para comprar leite e pão para os meus filhos.
Mas o dia que mudou tudo não foi um dia de trabalho. Foi o dia em que a minha filha precisava de 1.500 kwanzas para uma visita de estudo. Procurei esse dinheiro em todo o lado. Não consegui. Tive de lhe dizer que não podia ir.
Ela fingiu que estava tudo bem. Mas naquela noite eu chorei. E percebi: se continuasse à espera que um salário resolvesse a minha vida, nada ia mudar.
Tentei de tudo — revendi roupa, vendi perfumes no WhatsApp, fiz bolos, vendi comida ao almoço. Entrava algum dinheiro, mas nada durava. Eu fazia tudo sem estratégia, sem saber cobrar, sem clientes fixos.
Até uma tarde quente, na cozinha pequena da minha casa. Tinha leite condensado, natas e uma manga madura quase a estragar. Fiz um gelado. Nem era para vender — era só para refrescar os miúdos.
A minha vizinha Teresa provou, ficou uns segundos em silêncio e disse: "Sandra, isso não é gelado normal. Isso parece daqueles caros que vendem nos restaurantes."
No dia seguinte fiz dez copos e fui vender perto da paragem. O primeiro saiu por 700 kwanzas. Nesse mesmo dia vendi mais oito. Na semana seguinte, 43. Pouco depois veio a primeira encomenda para uma festa: 120 unidades de uma só vez.
Comecei a testar sabores que ninguém fazia: múcua, ginguba caramelizada, chocolate com café, coco com ananás. Enquanto os outros vendiam "gelado", eu vendia experiência. E foi isso que mudou tudo.
Hoje tudo isto começou numa cozinha pequena, com quase nenhum dinheiro. Foi por isso que juntei tudo — receitas, números e erros — num único guia. Para que tu não percas os anos que eu perdi.